Trajetória
Autobiografia
Release

Nasci em Itabaiana, na Paraíba, em 16 de agosto de 1962. Itabaiana é a terra de Sivuca e do poeta Zé da Luz. Saí da cidade em 1977, com 15 anos incompletos. Durante o período que vivi por lá, meu contato cultural com a cidade foi através do rádio. Por intermédio do rádio conheci grandes mestres da música nacional, como Luiz Gonzaga, Luiz Vieira, Orlando Silva e o Trio Nordestino. Também, no rádio, ouvi as músicas de Antônio Barros e de outros. Vivi essa relação de namoro com a informação radiofônica de qualidade. Além disso, meu pai era um cara que gostava muito de música, era louco para tocar, mas nunca conseguiu fazê-lo.

Meu contato se tornou mais íntimo com a música quando meu irmão mais velho, aos oito anos, ganhou um violão e deslanchou a tocar violão divinamente. Ele é um grande músico até hoje. Meu pai se chamava Edísio Vieira dos Santos. Era maquinista da Rede Ferroviária Federal e faleceu no exercício do trabalho: o trem virou, em 1975. Ele tinha 42 anos, na época. Meu irmão, Antonio de Pádua, conhecido como Pádua Santos, é um músico nato, daqueles que têm um ouvido fabuloso. Sempre foi o grande músico lá de casa. A minha necessidade de mexer com a música só veio aflorar quando completei 18 anos, já morando em João Pessoa.

Minha família toda se mudou para João Pessoa por questões de êxodo mesmo, aquela coisa de buscar oportunidades. Em 1977, fui aprovado em um processo seletivo para cursar mecânica na Escola Técnica Federal da Paraíba. João Pessoa era, e continua sendo, um lugar promissor. Quando volto a Itabaiana, percebo que sair de lá foi uma decisão acertada. Descobri a coisa da música, em João Pessoa, no ano de 1980. Eu cursava engenharia mecânica na Universidade Federal da Paraíba. Larguei tudo. O violão e a música mexeram demais com a minha cabeça e mudaram meus rumos completamente. Depois, fiz jornalismo. Descambei por um bocado de caminhos.

A minha descoberta da música foi muito espontânea. De repente passei a gostar de violão. Esse instrumento virou meu fetiche. Quando via João Gilberto na televisão, eu ficava louco com aquilo que ele fazia. Minhas primeiras canções são bossa nova. Estudei naquelas revistinhas Vigu, de violão. Uma pena que, até hoje, ainda não aprendi harmonia. Na mesma época das primeiras canções, surgiu também a necessidade de escrever.

Tive uma grande sorte quando fui morar em João Pessoa. Costumo dizer que me mudei para João Pessoa no afã de morar de frente para o mar e acabei morando de frente para Pedro Osmar. Morei no bairro de Jaguaribe, em frente à casa dos irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró. Eles são dois ativistas culturais fabulosos. Pedro Osmar se autodenomina “guerrilheiro da cultura”, e tem suas razões para isso. Na época, ele montou esse projeto chamado Musiclube da Paraíba, que reunia compositores e afins para discutir e fazer música, criar projetos e tal. Também teve um projeto chamado Fala Bairros. Começou em Jaguaribe, com o Fala Jaguaribe. Fui ativista desse projeto. Isso tudo sem apoio oficial. Era espontâneo, do próprio bairro. O Fala Jaguaribe tinha a seguinte proposta: pegar tudo que se manifestava no bairro, em termos de cultura, e levar para um espaço. Lá as pessoas faziam o que sabiam fazer: música, poesia... No final, a comunidade discutia o que tinha visto. Minha primeira apresentação com show montado foi em 1983, no começo do ano, em Jaguaribe. Eu sozinho tocando minhas canções. Um ano depois, já no Musiclube, fiz meu primeiro show com banda, em 6 de junho de 1984.

O Musiclube foi muito importante para a minha formação estética e política. Este movimento ensinou que o artista deve ter consciência de que, quando está no palco, existem o público de um lado e os bastidores de outro. De um lado está a representação do mercado, que é a vinda do público para ver o seu trabalho. E, por trás, aquilo que sustenta você como estrutura. O relacionamento com essas duas situações deixa muita gente perdida, transforma muitos em marionetes. Enquanto uns se perdem, outros vão, mas sem saber voltar. Para você entrar de uma maneira consistente no mercado, nas luzes do palco e nos abajures dos bastidores, tem que ter consciência do seu papel. Isso evita que a pessoa vire um bonequinho, que muitas vezes as pessoas viram.

O Musiclube ensinou essas histórias pra gente, além de ser um laboratório estético. A gente criava um projeto, inventava soluções e também inventava problemas, para poder depois resolvê-los. O que me manteve no palco durante tanto tempo foi justamente o Musiclube. Toda vez que a gente se desencantava com alguma coisa, surgia um novo projeto para nos manter no palco. E o grande catalisador desse processo é esse camarada chamado Pedro Osmar Gomes Coutinho. Hoje tenho algumas divergências com ele, sobretudo no ponto de vista de como encaminhar as coisas. Mas Pedro Osmar foi e é extremamente importante para a cena musical da Paraíba.

Pelo Musiclube passaram artistas como Milton Dornellas, Kennedy Costa e muitos outros compositores de João Pessoa, como Totonho, que recentemente lançou um CD chamado “Totonho e Os Cabra”. Esse disco já ganhou prêmio até na Itália. Chico César, que é um dos maiores ícones da Paraíba e da música brasileira, também passou pelo Musiclube.

No final de 1983 participei do meu primeiro festival. Fiz uma canção e mostrei para uns amigos que tocavam com meu irmão. Eles se entusiasmaram, apostaram que ganharíamos o festival. Montamos uma banda tão grande que, se fosse contar, tinha mais gente no palco do que assistindo ao festival. Só de backing vocals eram três. Sem contar com sanfona, guitarra, baixo, bateria e eu tocando uma craviola. A música, que foi para a final, chamava-se “Respostas”. Era um festival da Escola Técnica Federal da Paraíba, chamado MPBTEC. No ano seguinte, já contaminado pelo Jaguaribe Carne, entrei com uma outra música. Essa foi uma das minhas incursões experimentais. A música era “Mama Society Blues”. A letra era sobre a história de um filho que dizia que a mãe queria amarrar ele no chaveiro dela. Uma coisa meio irônica na relação entre mãe e filho. A mãe queria que o filho fosse tudo no mundo, contanto que ele fosse o que ela queria. Ganhei o prêmio de melhor letra. Chamei alguns amigos pra fazer experimentos no palco. Enquanto um gritava, outro fazia discurso. Mexi com as estruturas, fiz um negócio bem louco. O público ficou meio boquiaberto, mas não houve vaia e ninguém jogou sandália. Não tenho nenhuma cicatriz por causa desse evento. Toquei e fui para casa. Pra minha surpresa, pouco tempo depois um amigo foi me avisar que a música tinha sido classificada para a final. Eu falei: “isso é que é ser um festival incompetente, uma música daquela ir para a final...” (risos).

Participei de um grupo chamado Mama Jazz. Também foi uma criação de Pedro Osmar, junto com o artista africano Guilherme Semmedo. Ele, que participa do meu CD “Diário de Bordo”, é de Guiné Bissau. Quando a gente vê Guilherme tocando, fica impressionado como o faz com tanta espontaneidade. Pedro Osmar montou o grupo e escolheu o nome baseado em uma música minha e de Milton Dornellas, “Mamma Jaz”, que ele transformou em Mama Jazz. O objetivo era tocar músicas do mundo. Do grupo participaram, entre outros, Gláucia Lima, Guilherme Semmedo, Euclides Aguiar e Jorge Negão.

Em 1996, se não me engano, me juntei com Milton Dornellas, compositor carioca radicado na Paraíba há mais de 25 anos; Marcos Fonseca, compositor cearense também radicado na Paraíba; Wander Farias, músico que trabalhou comigo muitas vezes; Archidy Filho, escritor, designer e músico. Montamos o espetáculo Violação. O nome é porque só tinha cordas. Era violão, violão, violão. Violação também porque violava certos conceitos. Setenta por cento do grupo compunham. Fazíamos vocais e violões. Chegamos a fazer cinco ou seis shows, inclusive em Cajazeiras, no extremo oeste da Paraíba.

Em 1997 ganhei o festival da Universidade da Paraíba, com a música “Manus Manus”, um chorinho que também está gravado no meu disco. Ano passado ganhei o primeiro lugar em um festival do CEFET da Paraíba, com uma bossa nova. Também participei de um festival em Presidente Prudente, interior de São Paulo, com o fado “Memória das Águas”, meu e do poeta Lúcio Lins. A música foi selecionada. Fui junto com o companheiro Wander Farias, que defendeu outra música. Tocamos, mas não fomos classificados para a final.

Participei de 13 edições do Festival MPB Sesc, o que resultou na gravação de duas músicas. No primeiro com a música “Cara de Santo”, a que ficou em terceiro lugar. No ano seguinte, fui pra final com a música “Quem inventou o samba”. Também tem música minha no CD coletivo chamado “Coletânea Musiclube”. Esse disco foi lançado como resposta à afirmação de que os artistas paraibanos não tocavam no rádio porque na Paraíba não se fazia música que atendesse aos interesses das emissoras. Pegamos vários compositores, com músicas completamente diferentes. Tinha de música experimental a seresta. Juntamos e fizemos este CD pra mostrar às rádios esse leque imenso. Nesse CD tem uma canção minha e de Paulo Ró chamada “Cavalo Alazão”. É uma bossa nova, quase samba canção. Minha irmã, Dida Vieira, que é a cantora da família, é quem interpreta.

Eu sou o inquieto, sou o compositor. Carrego a inquietude do criador. Sou aquele cara que quer criar, que quer inventar o tempo todo. Costumo dizer que se eu conseguisse representar os três em um só, como na Santíssima Trindade, seria, no mínimo, um João Bosco ou um Gilberto Gil. Minha irmã canta mesmo muito bonito. Ela participa do “Diário de Bordo”. Estamos tentando, através da lei de incentivo, viabilizar a gravação do primeiro disco dela. E meu irmão, realmente, é um grande instrumentista. Eu, não. Tenho plena consciência do que represento nisso. Sou um camarada inquieto que, por não ter domínio nato do instrumento, inventei um jeito de tocar. Como tenho certo domínio rítmico, inventei um jeito de mexer no violão. Na harmonia, sou meio que charlatão, às vezes. Às vezes faço um mesmo acorde em três lugares diferentes do violão. Quem vê, diz: “esse cara toca demais”. Mas eu estou fazendo a mesma coisa. Fui comentar isso com um amigo guitarrista. Eu disse: “olha, você já percebeu que eu sou um charlatão, não é?” Ele respondeu: “não, isso é um negócio que você inventou. Você faz um acorde, um lá menor e puxa pro meio do violão e depois pro final, dentro do ritmo. Isso que você inventou é um movimento harmônico que você está fazendo”. Eu descobri um jeito de driblar minha incompetência instrumental inventando um jeito de mexer com o violão.

Na época do Musiclube, quase todos meus companheiros gravaram. Eu compondo, fazendo um show aqui, outro acolá, e esse negócio represado, meu trabalho incubado. Quando surgiu a lei de incentivo chamada Viva Cultura, aqui em João Pessoa, que era uma lei de renúncia fiscal baseada na captação de recursos, encaminhei um projeto. Foi aprovado. Foi bom ter esperado, porque gravar por gravar, não basta. Tem que ter produção. Se você tem 5 mil reais pra gravar um disco, pegue seu violão, vá para um estúdio e grave sozinho. Resultado: vai sair um disco voz e violão. Agora, o bom é quando você pega essa mesma música, submete a arranjos complexos, chama um grupo para trabalhar, paga todo mundo, contrata bons estúdios, e faz tudo isso sem pressa, sem limite curto de tempo pra terminar. Meu disco saiu assim. Eu tinha 16 mil reais para fazer um CD. Não é grande coisa, mas consegui gravar um disco com um nível razoável de produção. Então, demorou por isso, porque esperei meu momento. O disco é um disco feliz porque ele é um registro de tudo o que eu fiz. Tem a participação de companheiros de muitos anos, por isso que é “Diário de Bordo”. É o registro de minha viagem na música.

O CD ganhou o Troféu Imprensa do ano 2000, na categoria melhor disco da Paraíba. No mesmo ano, eu ganhei na categoria de melhor compositor. O “Diário de Bordo” trouxe essa visibilidade que eu não tinha. Fez com que eu encarasse a música mais profissionalmente e investisse mais nas minhas coisas.

Por fim, quero prestar uma homenagem a um dos maiores poetas que conheci. Na minha avaliação, ele está no nível de Fernando Pessoa e Manuel Bandeira. É o paraibano Lúcio Lins. Em todos os lugares onde eu estiver, vou continuar lembrando desse cidadão. Ele faleceu no dia 16 de abril passado. Viveu a inquietude de sua poesia. Construiu grandes amigos justamente porque era um cara que tinha um nonsense muito forte. Tinha uma maneira muito engraçada de chegar nas pessoas, era descontraído o tempo todo. Era um cara meio existencialista, vivia numa busca permanente de encontrar os caminhos pelo viés da poesia. Lúcio Lins lançou apenas três livros, mas deixou uma densidade estética fortíssima no processo. O “Diário de Bordo” inclui duas parcerias que fiz com ele. Tem “Fora do Circo” e “Memória das Águas”. Ele até participa nesta última, que é um fado, recitando outro poema de sua autoria. Recomendo os livros de Lúcio Lins a quem quer ter acesso à obra literária da Paraíba. O livro mais importante dele foi o último lançado, “Perdidos Astrolábios”.