Trajetória
Autobiografia
Release

Por Lau Siqueira

Adeildo Vieira, seguramente, representa uma das mais belas expressões musicais deste país. Ainda fora da grande mídia, esse artista aproxima a sua produção, em termos de densidade e beleza, à produção de nomes consagrados (e também fora da mídia), como Beto Guedes e outros gigantes cujo talento e honestidade estética nos ajudam a compreender a engrenagem midiática como um Big Brother sorridente e... sem os dentes necessários para digerir a qualidade e a diversidade da música brasileira contemporânea.

Preocupado muito mais com as especificidades da sua própria produção, alheio (e não alheado) aos monturos maquiados das grandes produções, Adeildo é um guerrilheiro do cotidiano, mostrando em cada show, em cada nova música, em cada cantata... que muito além do encontro da música com a poesia, promove o encontro da arte com a cidadania.

Dono de uma percepção ao mesmo tempo crítica e amorosa do mundo (coisa que aflora em suas letras), Vieirinha vai trilhando um caminho infelizmente raro na música brasileira, o caminho dos que despem a alma porque sabem que é da integralidade da sua existência nascerá uma obra revestida, sobretudo, de dignidade e beleza. Neste caso específico, não me refiro apenas a beleza que devora os sentidos, mas também a beleza invisível que alimenta corações e mentes no caminho luminoso de onde sempre partem os guerrilheiros do futuro, aqueles que resistem ao oco, ao descampado da inteligência e das emoções humanas, como o conteúdo ideológico das bolsas de valores, onde a compra e venda de ações determinam a fome no mundo.

Aos produtores do Brasil e deste mundão cibernético de Língua Portuguesa, diante da mesmice e da mediocridade patológica que oprime os povos, solicito alguns minutos de atenção em torno deste artista ímpar que nem precisava ser o companheiro maravilhoso que é, porque somente por sua obra já seria suficientemente amado.

Adeildo é a melhor expressão de uma geração inteira de artistas que insiste em conduzir o traçado das suas existências, no compromisso de cumprir em cada instante um ato de transformação, seja estética, seja política... Sensível às mazelas do mundo, ele canta o amor e suas viagens celestiais, a dor de sentir na pele a selvageria do sistema, ou as dores da alma... mas, sobretudo, esse “coleguinha” canta o prazer de sentir o braço-no-abraço-companheiro de quem acredita que 'a vida pode ser bem melhor... e será.'